Acho que hoje cheguei numa certa fase que consigo falar bem da minha infância sem fazer drama. Foi uma infância normal, sem grandes peripécias. Tinha amigos, brincava com as Barbies originais e as falsificadas, invejava a casa de bonecas enorme da minha melhor amiga, brincava de picpega, pic altura, elefantinho colorido, alerta cor, queimada, volei... E adorava ficar doente.
Sim, porque se for pensar bem, ficar doentinho (mas não gravemente, claro) até que é um bom negócio para qualquer criança. Você mata aula, recebe toda a atenção dos pais (da mãe nem de fala), recebe mimos e ainda dá para contar vantagem para os amigos dizendo que vomitou ou ficou com febre. Melhor que isso, só extrair dente, que para uma criança, só significa uma coisa: tomar todo o sorvete do mundo, ou pelo menos, todo que o estômago permitir. São coisas que só dá para fazer quando se é criança, pois quando se é adulto ficar doente ou extrair dente significa faltar o trabalho/perder prova/não resolver as coisas e, não, não dá para tomar todo o sorvete do mundo, por motivos óbvios.
O negócio é que quando sua mãe é uma "momzilla" (brincadeirinha, mãe) é só você aumentar um grau a sua temperatura ou tossir de um jeito esquisito que ela te leva para a grande figura adulta na vida de uma criança: o pediatra. As crianças amam ou odeiam. No meu caso, amava. A minha era uma figura extremamente peculiar. A clínica era uma casa bem bonita, com um quintal enorme na frente com parquinho, onde a gente esquecia que estava doente. O consultório era cheio de brinquedos. Ela falava bem alto, como se fosse uma professora (tipo eu, hoje em dia). E se a gente cooperasse no exame físico ela ainda subornava com um pirulito de coração! Isso tudo me fez gostar muito de ir ao médico. Isso e minhas necessidades atópicas que foram aumentando conforme o tempo.
É claro que a coisa muda de figura quando a gente se torna adolescente... Alguém já viu aborrescente gostar de ir ao médico? A não se isso custar uma segunda chamada de uma prova cuja matéria ainda não tenha sido estudada. Para mim a coisa começou a mudar quando me mandaram tomar o maldito reforço da BCG com 11 anos. Eu, já metida a pré adolescente, lá queria ficar com uma marca enorme purulenta no braço?? Eu hein... Mais raiva ainda passei, quando depois descobriram que o reforço não servia para nada... Mas em relação a Medicina e ao meu futuro, eu nem imaginava.
Com 14 anos, queria ser diplomata. Sempre gostei de línguas e tinha muita facilidade com elas, além disso achava uma carreira bonita, de status, demontrava profundo girl power. Imagina só aquelas reuniões chiquérrimas com chanceleres e chefes de estado do mundo todo, discutindo sobre política externa, comércio internacional, paz mundial... E claro, com direito a ternos Armani e conjuntinhos Chanel. Mas aí descobri que para ser diplomata, precisava ter um jogo de cintura muito forte e não ser barraqueira (não que eu seja hehehe). Mas não dá pra eu ser como eu sou, dizendo todas as verdades as pessoas, odiando engolir sapos, demonstrando na cara o que sente. Será que ter diplomacia é ser falso?
De qualquer maneira, cheguei no 3o ano do Ensino Médio sem saber muito bem o que fazer. Meu pai dizia: "se você não sabe o que faz, faça Direito" (com D maiúsculo, para evitar trocadilho). Mas eu era boa em biologia e química orgânica, tinha curiosidade científica suficiente para saber que eu não queria me enfiar num mundo de livros, códigos e leis. Eu tinha que fazer algo a ver com biologia e pesquisa e que me garantisse um mercado de trabalho bom depois da faculdade. A lâmpada da Medicina acendeu. Eu não sabia como ia fazer para melhorar as minhas habilidades com pessoas. E entrei no curso assim. E até hoje não sei bem, mas descobri que era isso mesmo que eu queria fazer desde o princípio. Medicina é desafio. E eu sempre gostei de um desafio. Desde criança.
Nenhum comentário:
Postar um comentário